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27.09.04

Prevenção e tratamento da anemia em crianças

 

Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que a prevalência média da anemia em três serviços de saúde pública da capital paulista foi de 60%. Mesmo após a suplementação alimentar com sulfato ferroso, o índice permaneceu alto, em torno de 45%. Em Goiânia, outro estudo da Unifesp com lactentes apontou que, entre as crianças consideradas não anêmicas, 20% estavam com suas reservas de ferro esgotadas. Conclusão dos trabalhos é de que a informação às mães sobre formas de prevenção ainda é insuficiente.

O objetivo do estudo, apresentado como tese de doutorado na Unifesp, foi o de verificar a prevalência da anemia ferropriva em crianças menores de dois anos na zona Sul da cidade de São Paulo e desenvolver uma proposta de prevenção e controle do problema. Entre os serviços de atenção primária à saúde analisados estão uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Programa de Saúde da Família (PSF) e um Centro de Saúde Escola, localizado no interior de uma universidade.

Além da avaliação da qualidade dos serviços, por meio da quantificação de hemoglobina presente no sangue das 357 crianças atendidas nos locais antes e após três meses de suplementação de ferro, também foram avaliados os fatores de risco para o desenvolvimento da carência de ferro.

De acordo com Patrícia Colombo Compri, nutricionista e autora do estudo, a pior adesão ao tratamento foi encontrada na UBS, em que, mesmo após a intervenção, o índice permaneceu em 60%. “Não foi identificado nenhum fator que facilitasse a interação entre a equipe da unidade e as 173 mães atendidas no local. Faltou, principalmente, orientação adequada por parte do profissional de saúde”, explica.

Apesar de o PSF ter tido maior retorno quanto à adesão das mães na suplementação dos filhos, os resultados também não foram satisfatórios. O índice inicial de anemia encontrado pela pesquisadora (60%) baixou apenas 10%.

A melhor resposta obtida no tratamento foi encontrada no Centro de Saúde Escola, no qual se observou a queda de 60% para 25% de crianças com anemia. Para Dirce Maria Sigulem, professora adjunto da disciplina de Nutrição e Metabolismo da Unifesp e orientadora da pesquisa, a presença de estagiários de graduação em medicina e de uma equipe multidisciplinar foram fundamentais para um melhor resultado. “A ocorrência desse tipo de anemia depende, basicamente, da prevenção”, afirma. “A alta prevalência do problema pode ser utilizada como indicativo da má qualidade da atenção primária à saúde prestada à população”.

O estudo também apontou como fatores de risco para o desenvolvimento da doença o crescimento rápido das crianças nos dois primeiros anos de vida, principalmente as do sexo masculino. Na alimentação, o aleitamento materno não foi fator protetor da anemia. “A amamentação é essencial para a saúde da criança. Porém, a suplementação de ferro não deve ser desconsiderada, já que o nutriente acaba competindo com o cálcio do leite materno na hora da absorção”.

Reservas de ferro esgotadas
Outro estudo, realizado em uma Unidade Básica de Saúde de Goiânia (GO) com 110 lactentes, a prevalência da anemia não foi diferente da encontrada na zona sul da capital paulista. Entre os lactentes que ainda não eram considerados anêmicos, 20% estavam com suas reservas de ferro no organismo esgotadas.
O fato de a mãe ser dona de casa foi um dos fatores que aumentou em cinco vezes o risco de a criança desenvolver a doença. “O trabalho fora do lar pode ser associado ao maior acesso dessas mulheres às informações sobre nutrição e saúde, refletindo diretamente no resultado“, explica Maria Claret Hadler, nutricionista e autora da tese de doutorado apresentada na Unifesp.
Na análise alimentar, a introdução da carne vermelha após os seis meses de vida aumentou em três vezes o risco de anemia quando comparado ao grupo no qual foi dado o alimento antes dessa idade. O consumo de leite comum – após a amamentação – ao invés das fórmulas lácteas enriquecidas com ferro também contribuiu em um risco cinco vezes maior.

Importância do ferro no organismo
A falta de ferro no organismo pode causar a diminuição da produtividade no trabalho, da capacidade de aprendizado, retardo no crescimento, apatia e baixo peso ao nascer. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a carência desse nutriente também pode ser a causa primária de uma entre cinco mortes de mulheres que acabam de dar à luz. No Brasil, a doença afeta cerca de 50% das crianças com até cinco anos, 20% dos adolescentes e 30% das gestantes.
De acordo com Dirce Sigulem, orientadora das duas pesquisas realizadas na Unifesp, as medidas propostas pelo MS em 2001, obrigando a adição de ferro e ácido fólico nas farinhas de milho e trigo, deverão ter maior impacto nos grupos de crianças acima dos dois anos. “No grupo estudado, permanece a necessidade de suplementação, pois o consumo de farinhas não é suficiente para atender a quantidade de ferro necessária para compensar a velocidade do crescimento dessas crianças no primeiro ano de vida”.

 
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