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30.04.08

Brasil pode ser independente na produção do fator VIII

 

Uma pesquisa do Núcleo de Terapia Celular e Molecular – NUCEL, um Centro de pesquisas vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo, pretende tornar o Brasil auto-suficiente na produção do fator VIII de coagulação para o tratamento de hemofilia. No fim de 2007, os pesquisadores do NUCEL concluíram a fase de desenvolvimento e cultura celular visando à produção do fator VIII humano recombinante. A segunda fase tem o objetivo de buscar interação com o setor empresarial de base biotecnológica e industrial para a produção em escala.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece para a rede hospitalar o fator VIII purificado a partir de plasma humano para o tratamento dos hemofílicos. O processamento deste plasma é iniciado a partir de doações de sangue. Parte deste plasma (150.000 litros/ano) é coletada em Bancos de Sangue do Brasil e enviado para França e Áustria, onde é feita a purificação do fator VIII em quantidade suficiente para atender cerca de 20% da demanda nacional. O restante é adquirido através de importação direta do mercado externo. O custo anual para aquisição deste fator pelo SUS é da ordem de R$ 150 milhões.

A iniciativa do Ministério da Saúde, no início de 2004, de implantação da Hemobrás, para processamento do plasma humano, tem, como um dos objetivos, reduzir os custos com a importação do fator VIII. Inicialmente, está prevista a construção de uma planta em Pernambuco. As projeções são que em 2015 a Hemobrás esteja funcionando na sua capacidade plena, quando então estará suprindo cerca de 35% da demanda nacional atual. Para que o Brasil atinja a auto-suficiência, em 2015, será necessário quintuplicar o número atual de doadores. Além disso, a demanda atual brasileira se baseia em protocolos de tratamento da hemofilia, que prevêem o uso do fator VIII apenas sob demanda, como, por exemplo, em casos de hemorragias associadas a acidentes ou cirurgias. Considerando-se que o Brasil venha a adotar, nos próximos anos, os protocolos de uso profilático, que visam evitar episódios de sangramento, e os de imuno-tolerância, os quais exigem grandes quantidades do fator, sendo uma tendência principalmente em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, a demanda nacional apresentaria um grande aumento. Nesse quadro, a capacidade da Hemobrás de suprir a demanda nacional seria ainda menor.

Uma das possibilidades mais promissoras para aumentar a produção do fator VIII, visando à auto-suficiência brasileira para as necessidades deste fator, seria a produção do fator VIII por Engenharia Genética, o fator VIII recombinante ou biofármaco. Diferentemente do fator VIII purificado a partir de plasma de doadores, o fator VIII recombinante é produzido através da utilização de células de mamífero mantidas em cultura, nas quais foi introduzido o gene do fator VIII. Essas células modificadas secretam o fator VIII para o meio de cultivo, que é então coletado e processado para obtenção do fator VIII recombinante purificado pronto para uso em humanos.

Uma das vantagens da utilização do fator VIII na forma recombinante é acabar com o problema crescente de escassez de matéria-prima para a sua purificação, o plasma. Uma outra vantagem é quanto à segurança. Atualmente, o fator VIII obtido de plasma passa por um processamento e controle rigoroso, permitindo sua utilização segura, principalmente quanto ao potencial de transmissão de vírus, como os causadores da Aids e das hepatites B e C. Entretanto, existe um risco potencial associado à utilização deste fator purificado de plasma quanto ao aparecimento de algum patógeno, ainda desconhecido, e que seja resistente aos atuais métodos de inativação empregados. Com a utilização do fator VIII recombinante esse risco é praticamente inexistente.

A substituição do fator VIII humano derivado do plasma pela sua forma recombinante é uma tendência mundial. Em alguns países da Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Canadá, cerca de 70% do fator VIII utilizado é recombinante. A Irlanda, a Escócia e a Dinamarca já adotaram o uso exclusivo da forma recombinante como parte das suas políticas nacionais de Saúde. Porém, uma grande desvantagem do fator VIII recombinante é o seu preço, inviabilizando seu uso mais difundido, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Devido a grande complexidade associada ao processo de obtenção do fator VIII recombinante, aliada ainda à produção insuficiente para atender a demanda mundial, seu preço chega a ser cinco vezes maior do que o do fator VIII obtido de plasma.

Nesse sentido, o desenvolvimento das técnicas de obtenção de linhagens de células de mamífero, que produzam altos níveis de fator VIII recombinante, é imperativo no estabelecimento da produção deste fator recombinante nacional para tratamento de hemofilia, assim como para o desenvolvimento de competências nacionais na área biotecnológica de produção de proteínas recombinantes de interesse econômico e de Saúde Pública. Em resposta à esta demanda do mercado, o fator VIII recombinante, desenvolvido pelo grupo NUCEL, está sendo obtido através da introdução do gene do fator VIII em células de ovário de hamster chinês, mantidas em cultura. Já se obtiveram células modificadas em cultura com uma produção suficiente de fator VIII recombinante para o desenvolvimento das próximas etapas, visando à produção em escala industrial. Para o desenvolvimento dessa nova etapa o NUCEL está buscando parcerias com o setor empresarial.

 
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