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As opiniões manifestadas nesta seção são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da direção
da feira Hospitalar

 

23.06.03

Gestão do ciclo de vida de espaços e tecnologias e redução de desperdícios e custos
Lauro Miquelin*
 
Planejamento
Organizações de saúde habitam espaços e tecnologias que têm ciclos de vida diferenciados: o sistema estrutural em geral é projetado para durar centenas de anos; cobertura e vedações algumas décadas; elevadores 15 a 20 anos. Computadores e equipamentos médicos com base em processadores digitais têm uma velocidade de renovação estupidamente alta.

O ciclo de vida de um empreendimento começa na gestação do planejamento. No Brasil, nos últimos 50 anos, a profissionalização da arquitetura hospitalar produziu excelentes testemunhos sobre a importância do planejamento para redução de custos operacionais : a anatomia do edifício e fluxos inteligentemente organizados reduzem percursos e tempos de atendimento. Permitem o uso racional das equipes de cuidadores (médicos, enfermeiros etc) e simplificam a logística das operações. Soluções de arquitetura e engenharias elegantemente desenhadas reduzem as perdas de energia elétrica nascidas da dependência excessiva de sistemas de ar condicionado, comuns em edifícios com fachadas energívoras de vidro. Não esquecer de nenhum detalhe para instalação de equipamentos e sistemas é uma garantia de eliminação de desperdícios, ainda teimosamente presentes no faz e desfaz da implantação de empreendimentos de saúde.

Eliminar estas perdas com bom planejamento pode facilmente cortar, em alguns casos, 6, 12 e até 20% dos custos do investimento. Faça as contas para seu caso: o resultado pode ser a diferença entre o vermelho e o azul dos seus números e prazo aceitável de retorno do investimento. Além dos números azuis, o planejamento pode ajudá-lo no valor agregado do prazer do espaço. Consumidores de serviços de saúde, depois de vencer a barreira do acesso ao sistema, sonham com a estética da dignidade. Que tem a riqueza das cores da cerâmica marajoara ou a placidez dos verdes e terracotas do pantanal.

Gerenciamento de obras e incorporação de tecnologias
A segunda fase no ciclo de vida de espaços e tecnologias, antes ainda do nascimento, é a fase do gerenciamento das obras e da incorporação das tecnologias médicas e prediais. Nesta fase, o nome do jogo é garantir que todos os aspectos da montagem do empreendimento, da qualidade dos materiais e serviços empregados à instalação e testes da tecnologia a ser embarcada estejam alinhados com os projetos. E que as correções de rumo eventualmente necessárias durante a aventura não enterrem o empreendimento – uma reforma ou nova unidade- num mar de aditivos contratuais que joguem o preço da obra para as nuvens.

A aquisição de mobiliário, equipamentos médicos e sistemas prediais ocorre no período final de entrega do empreendimento para os usuários. Escolhas equivocadas de equipamentos e sistemas que em algumas áreas são muitas vezes mais caros do que o metro quadrado de construção que os abriga podem resultar em desastre para o sucesso do empreendimento.
Um processo bem organizado de aquisição de tecnologias médicas, mobiliário e equipamentos de infra-estrutura deixa os usuários envolvidos e comprometidos com as escolhas, respeita os limites de investimentos previstos para a viabilidade do negócio e reduz perdas e custos futuros de manutenção.

Manutenção
Quando espaços e tecnologias são entregues aos usuários começa verdadeiramente a aventura do ciclo de vida do abrigo hospitalar. O trabalho da manutenção será manter a confiabilidade de cada sala, equipamento e sistema de infraestrutura, nos níveis de desempenho para os quais foram projetados. A manutenção de hospitais pode ser comparada a de um pequeno avião. Há coisas que se podem checar e consertar com o avião voando. Há coisas que se farão com o avião planando e motores desligados. Mas para essas operações de manutenção em vôo serem possíveis, os homens do planejamento, lá atrás terão que ter previsto sistemas redundantes e ‘planos B’. Sem essas previsões da fase de planejamento os riscos de falhas aumentam. E falhas em vôo raramente tem final feliz.
A grande maioria dos hospitais brasileiros ainda não tem sistemas organizados de gestão e operação da manutenção seja predial, seja de equipamentos médicos. A ineficiência ou falta destes sistemas de gestão de manutenção jogam pelo ralo recursos que podem representar percentuais mais altos do que os próprios resultados operacionais das organizações de saúde. Por outro lado, é super fácil cortar custos de manutenção. É só deixar tudo deteriorar-se. Os números do balanço ficam melhores. Mas provavelmente os clientes fogem e o risco do hospital ou seus executivos irem para as páginas policiais aumenta.


Conclusão
O ciclo de vida de espaços e tecnologias de um empreendimento na área da saúde precisa ser administrado com o mesmo cuidado e carinho com que se administra gente, processos e dinheiro. GETS – gestão de espaços e tecnologias – é uma caixa de ferramentas para cuidar deste ciclo, proteger a confiabilidade do abrigo e seus sistemas. Para que ninguém se lembre deles.


* Lauro Miquelin é gerente executivo da L+M ARQUITETURA, arquiteto pela FAU USP e PhD em Medical Building Design pela Universidade de Bristol, Inglaterra; atua há 22 anos em Gestão de Espaços e Tecnologias (Planejamento, Gerenciamento de Obras e Incorporação Tecnológica e Manutenção) para Organizações de saúde. A L+M Arquitetura é responsável pelo Hospital Contemporâneo, na Hospitalar

 

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