Planejamento
Organizações de saúde habitam espaços e tecnologias
que têm ciclos de vida diferenciados: o sistema estrutural em geral é
projetado para durar centenas de anos; cobertura e vedações algumas
décadas; elevadores 15 a 20 anos. Computadores e equipamentos médicos
com base em processadores digitais têm uma velocidade de renovação
estupidamente alta. O ciclo de vida de um empreendimento começa
na gestação do planejamento. No Brasil, nos últimos 50 anos,
a profissionalização da arquitetura hospitalar produziu excelentes
testemunhos sobre a importância do planejamento para redução
de custos operacionais : a anatomia do edifício e fluxos inteligentemente
organizados reduzem percursos e tempos de atendimento. Permitem o uso racional
das equipes de cuidadores (médicos, enfermeiros etc) e simplificam a logística
das operações. Soluções de arquitetura e engenharias
elegantemente desenhadas reduzem as perdas de energia elétrica nascidas
da dependência excessiva de sistemas de ar condicionado, comuns em edifícios
com fachadas energívoras de vidro. Não esquecer de nenhum detalhe
para instalação de equipamentos e sistemas é uma garantia
de eliminação de desperdícios, ainda teimosamente presentes
no faz e desfaz da implantação de empreendimentos de saúde.
Eliminar estas perdas com bom planejamento pode facilmente cortar, em alguns
casos, 6, 12 e até 20% dos custos do investimento. Faça as contas
para seu caso: o resultado pode ser a diferença entre o vermelho e o azul
dos seus números e prazo aceitável de retorno do investimento. Além
dos números azuis, o planejamento pode ajudá-lo no valor agregado
do prazer do espaço. Consumidores de serviços de saúde, depois
de vencer a barreira do acesso ao sistema, sonham com a estética da dignidade.
Que tem a riqueza das cores da cerâmica marajoara ou a placidez dos verdes
e terracotas do pantanal.
Gerenciamento de obras e incorporação de tecnologias
A segunda fase no ciclo de vida de espaços e tecnologias, antes ainda do
nascimento, é a fase do gerenciamento das obras e da incorporação
das tecnologias médicas e prediais. Nesta fase, o nome do jogo é
garantir que todos os aspectos da montagem do empreendimento, da qualidade dos
materiais e serviços empregados à instalação e testes
da tecnologia a ser embarcada estejam alinhados com os projetos. E que as correções
de rumo eventualmente necessárias durante a aventura não enterrem
o empreendimento – uma reforma ou nova unidade- num mar de aditivos contratuais
que joguem o preço da obra para as nuvens.
A aquisição de mobiliário, equipamentos médicos
e sistemas prediais ocorre no período final de entrega do empreendimento
para os usuários. Escolhas equivocadas de equipamentos e sistemas que em
algumas áreas são muitas vezes mais caros do que o metro quadrado
de construção que os abriga podem resultar em desastre para o sucesso
do empreendimento.
Um processo bem organizado de aquisição de tecnologias médicas,
mobiliário e equipamentos de infra-estrutura deixa os usuários envolvidos
e comprometidos com as escolhas, respeita os limites de investimentos previstos
para a viabilidade do negócio e reduz perdas e custos futuros de manutenção.
Manutenção
Quando espaços e tecnologias são entregues aos usuários começa
verdadeiramente a aventura do ciclo de vida do abrigo hospitalar. O trabalho da
manutenção será manter a confiabilidade de cada sala, equipamento
e sistema de infraestrutura, nos níveis de desempenho para os quais foram
projetados. A manutenção de hospitais pode ser comparada a de um
pequeno avião. Há coisas que se podem checar e consertar com o avião
voando. Há coisas que se farão com o avião planando e motores
desligados. Mas para essas operações de manutenção
em vôo serem possíveis, os homens do planejamento, lá atrás
terão que ter previsto sistemas redundantes e ‘planos B’. Sem
essas previsões da fase de planejamento os riscos de falhas aumentam. E
falhas em vôo raramente tem final feliz.
A grande maioria dos hospitais brasileiros ainda não tem sistemas organizados
de gestão e operação da manutenção seja predial,
seja de equipamentos médicos. A ineficiência ou falta destes sistemas
de gestão de manutenção jogam pelo ralo recursos que podem
representar percentuais mais altos do que os próprios resultados operacionais
das organizações de saúde. Por outro lado, é super
fácil cortar custos de manutenção. É só deixar
tudo deteriorar-se. Os números do balanço ficam melhores. Mas provavelmente
os clientes fogem e o risco do hospital ou seus executivos irem para as páginas
policiais aumenta.
Conclusão
O ciclo de vida de espaços e tecnologias de um empreendimento na área
da saúde precisa ser administrado com o mesmo cuidado e carinho com que
se administra gente, processos e dinheiro. GETS – gestão de espaços
e tecnologias – é uma caixa de ferramentas para cuidar deste ciclo,
proteger a confiabilidade do abrigo e seus sistemas. Para que ninguém se
lembre deles.
* Lauro Miquelin é gerente executivo da L+M
ARQUITETURA, arquiteto pela FAU USP e PhD em Medical Building Design pela Universidade
de Bristol, Inglaterra; atua há 22 anos em Gestão de Espaços
e Tecnologias (Planejamento, Gerenciamento de Obras e Incorporação
Tecnológica e Manutenção) para Organizações
de saúde. A L+M Arquitetura é responsável pelo Hospital Contemporâneo,
na Hospitalar
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