A
dor tem sido e sempre será um grande problema para a saúde da humanidade.
Ela significa queda de produção no trabalho, nervosismo pessoal,
incômodo na convivência social e, principalmente, muito sofrimento
para o paciente.
Embora a ciência tenha mecanismos de avaliação sobre as
diferentes dores que o ser humano pode sentir, nenhuma determinação
técnica é superior ao diagnóstico do próprio paciente.
Cada um sabe como ninguém o quanto dói a sua própria dor.
E entre todas elas existe uma muito especial, a dor nas costas. Especial porque
atinge mais de 80% da população brasileira. E é dela que
vamos falar.
A dor nas costas está diretamente relacionada com uma série de
fatores que podem atingir qualquer um de nós: idade, sexo, tabagismo, erros
posturais do dia-a-dia, sedentarismo, obesidade, hereditariedade e um histórico
de já ter tido dores anteriormente. Quaisquer que sejam as fontes deste
problema ele tem solução e, apenas na minoria dos casos, leva o
paciente a sofrer uma cirurgia – apenas 4% dos casos identificados em clínica
realmente merecem uma atenção cirúrgica – a maioria
dos casos é tratada com medicação oral ou infiltrações
localizadas que exigem no máximo uma anestesia local, associadas a exercícios
físicos orientados e mudanças de hábitos.
Pelos sintomas que abordamos no histórico de pacientes com fortes dores
nas costas, um dos que chamam mais a atenção é a depressão.
Se mais de 80% da população brasileira sofre de dores nas costas,
podemos dizer que mais de 70% das pessoas com quadro de depressão têm
o mesmo problema.
Dor nas costas é um sintoma de que algo está errado. Pode ter múltiplas
causas, desde erros de postura, doenças da própria coluna como a
hérnia de disco e os bicos de papagaio, as fraturas por osteoporose, tumores
ósseos, doenças inflamatórias, contraturas musculares, fibromialgia,
depressão e doenças de outros órgãos, como a úlcera
no estômago e pedra nos rins. O seu diagnóstico é eminentemente
clínico e requer um inventário físico, psíquico e
social, bem como um exame físico extremamente detalhado. Os exames subsidiários,
entre eles a ressonância magnética, apenas servem para a confirmação
diagnóstica. Não devemos tratar exames, e sim pessoas, logo, laudos
de exames obrigatoriamente têm de apresentar uma correlação
com a clínica do paciente. Sabe-se que 30% das pessoas sem nenhum tipo
de dor nas costas que forem submetidas a um exame de ressonância magnética
da coluna terão hérnias ou protusões discais no seu laudo;
assim é importante sabermos interpretar e correlacionar com a clínica
do paciente os exames subsidiários. A clínica e a relação
médico-paciente é sempre soberana.
Todas estas informações nos levam a uma reflexão muito
interessante. A dor nas costas é um problema grave que deve ser levado
ao reumatologista, e que exige uma avaliação detalhada deste médico
com o seu paciente. Consultas rápidas, baseadas em laudos de exames, certamente
colocarão o paciente em risco de sérios erros diagnósticos
e condutas inadequadas.
* Dra. Evelin Goldenberg é reumatologista e coordenadora
do curso de pós-graduação em reumatologia, com ênfase
ocupacional do Hospital Albert Einstein, São Paulo, e professora colaboradora
da disciplina de Clínica Médica da Unifesp-EPM
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