Edifícios hospitalares também têm recorrido a um processo de construção inteligente e 'verde'. Nesses casos, o grande desafio é implementar a sustentabilidade sem interditar a unidade nem reduzir a qualidade do atendimento aos pacientes.
Sustentabilidade é uma das palavras mais ouvidas e pronunciadas ultimamente. Porém, é mais do que só um termo e merece atenção.
Seguindo exemplo de países desenvolvidos, aqui no Brasil, a conscientização já aparece na separação de lixo reciclável, na economia de energia elétrica e de água. Esses cuidados vêm ganhando proporções cada vez maiores, já que a sustentabilidade depende do equilíbrio entre os setores econômico, social e ambiental. Um edifício hospitalar já é considerado um projeto complexo pelo seu extenso programa de necessidades e, portanto, atender aos conceitos sustentáveis se torna mais um desafio.
Atualmente, as empresas brasileiras estão buscando certificações para ser possível a mensuração e a comparação entre as construções de maneira imparcial, além de obter reconhecimento e um diferencial no mercado da sustentabilidade. Por sua vez, os interessados em tornar "verde" suas obras buscam certificações como o LEED "Leadership in Energy and Environmental Design", organizado pelo U.S. Green Building Council (USGBC). Hoje o Brasil já possui o Green Building Council Brasil também atuante como representação nacional da organização norte-americana.
O LEED defende uma aproximação entre as edificações e o conceito de sustentabilidade por meio de cinco capítulos que geram créditos: desenvolvimento sustentável do entorno, economia de água, eficiência energética, materiais e recursos, e qualidade ambiental interna para os usuários da edificação. As inovações no design e as prioridades regionais também são consideradas para créditos. De acordo com a quantidade de créditos alcançada pode-se obter os seguintes níveis de certificação: verde, prata, ouro ou platina.
O próprio mercado hoje exige que as edificações possuam conceitos sustentáveis, seja por conta do aumento da preocupação da sociedade com as alterações ambientais produzidas pelo homem, seja pela necessidade de economia com manutenção e maior conforto dos usuários da construção. Afinal, os edifícios são os maiores responsáveis pelas emissões globais de CO2, atuando com 39%. Em segundo lugar estão os meios de transporte e, em terceiro, as indústrias, segundo dados do Environmental Information Administration (EIA) Annual Energy Outlook de 2008.
HOSPITAL "VERDE"
Instituições hospitalares também estão engajadas na busca pela sustentabilidade como é o caso do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), em São Paulo. As instalações do HIAE estão sendo ampliadas e vêm acompanhadas de um novo sistema de atendimento, processo de construção inteligente e utilização dos recursos de maneira sustentável.
Para que o processo funcione adequadamente é necessário, desde o início do projeto, uma concepção Arquitetônica Sustentável preocupada com a implantação e as orientações do edifício, além da colaboração entre todas as equipes multidisciplinares.
O Pavilhão Vicky e Joseph Safra do Hospital Albert Einstein é o maior edifício hospitalar do mundo a receber a certificação LEED no nível Ouro em 2009.
O novo prédio do HIAE possui 70.000 m2 bloco operatório com 20 salas de cirurgia, 42 apartamentos de internação-dia, 200 consultórios, médicos e um centro de diagnósticos por imagem completo com tecnologia inovadora.
Como este edifício foi projetado dentro dos critérios sustentáveis, existe um bicicletário e um estacionamento para ônibus de integração às estações de metrô próximas, utilizados para incentivo ao uso de meios de transportes alternativos e menos poluentes. Toda a água de chuva é reutilizada para irrigação dos jardins por um sistema de gotejamento que exige pouco consumo, assim como as louças e metais são econômicos no uso da água.
Os sistemas de ar condicionado e ventilação são de alta performance e não utilizam gás refrigerante CFC que é prejudicial à camada de ozônio. Sistemas como o circuito interno de segurança, controle de acesso, automação e redes de comunicação foram otimizados e estão direcionados às salas do Centro de Processamento de Dados, CPD, que possui um sistema especial de prevenção contra incêndio com gás não agressivo ao meio ambiente. Os espaços internos permitem controles individuais dos sistemas, valorizando o conforto térmico.
Nenhuma das tintas e vernizes aplicados na construção possuem compostos voláteis VOC ou deixam cheiro forte que poderiam a vir prejudicar a saúde dos ocupantes. As madeiras utilizadas possuem o selo do Forest Stewardship Council FSC aprovado pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, que garante que foram extraídas de maneira responsável.
Além de todas estas preocupações durante a obra, houve um rigoroso controle de poluição, um plano de gerenciamento de erosão, evitando assoreamento do solo, poeira e ruídos (com a finalidade de evitar problemas para moradores e frequentadores da região) e a correta reutilização de materiais, para evitar que entulhos sejam encaminhados a aterros sanitários ilegais.
Associado a isso, o plano de ampliação do hospital prevê a implantação de grandes espaços verdes nas áreas externas e na cobertura do edifício, que auxiliarão na inércia térmica, controle do desperdício de água e na mitigação das enchentes na região. Outra característica é o controle de poluição luminosa, pois a iluminação artificial instalada no prédio de 9W/m2 deverá ser suficiente para garantir a segurança e o conforto dos pacientes, mas não extravasa luz para fora durante a noite. A iluminação natural e as vistas das janelas foram incentivadas.
Existe um forte programa de conscientização implantado para todos os usuários do edifício, incluindo o uso dos postos de recolhimento de lixo reciclável em diversos andares. Uma pequena usina de classificação e compactação desse material reciclado também deverá integrar o projeto.
COMPLEXIDADE DO HOSPITAL
A racionalização do uso da energia é um dos itens mais ousados, pois mesmo com o funcionamento
do hospital 24 horas por dia e 7 dias por semana, foi conseguida uma redução de 14% do consumo de energia comparada à norma norte-americana ASHRAE.
Os edifícios "verdes" reduzem as taxas de absenteísmo, previnem alergias e melhoram a satisfação de todos os usuários. Como o edifício hospitalar trata do maior bem das pessoas – a vida -, o espaço deve promover a saúde. Nada melhor do que a sua própria estrutura ser saudável e sustentável.
* Eleonora Zioni é uma das primeiras profissionais a ser certificada LEED AP no Brasil, emitida pelo USGBC, professora de cursos de especialização e gerente de arquitetura da Kahn do Brasil.
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